Michael Oliver se torna o árbitro inglês com mais jogos apitados em Copas do Mundo ao comandar o duelo entre Espanha e Bélgica nas quartas de final desta quinta-feira, em Los Angeles - seu sétimo jogo no torneio. O feito, no entanto, vem acompanhado de uma sombra geopolítica que pode impedir o árbitro de alcançar o palco máximo da competição: a final de 19 de julho no MetLife Stadium, em Nova Jersey.
A barreira não é esportiva. Oliver e seu compatriota Anthony Taylor estão vetados de apitar qualquer partida envolvendo a Argentina por determinação da FIFA, em razão do legado político da Guerra das Malvinas, conflito de 74 dias travado entre Reino Unido e Argentina em 1982. O embate custou a vida de 649 militares argentinos, 255 britânicos e três ilhéus, e segue sendo uma ferida aberta: o atual presidente argentino Javier Milei reafirma publicamente a soberania argentina sobre as ilhas. No campo das grandes revelações do futebol mundial, o momento lembra a velocidade com que jovens talentos emergem e transformam o jogo - como se pode ver ao confira a promessa Lisa Baum, nome que movimenta o mercado europeu neste verão. O ponto central, porém, é que a política internacional dita regras dentro do futebol - e Oliver paga o preço disso.
O veto e suas implicações no chaveamento
Para que Oliver ou Taylor cheguem à final, é necessário que nenhuma das seleções problemáticas esteja na decisão. Inglaterra e Argentina estão no mesmo lado da chave e podem se encontrar em uma semifinal. Do outro lado, estão Noruega - adversária da Inglaterra nas quartas de sábado - e Suíça, que enfrenta a Argentina. Apenas se Noruega ou Suíça avançarem à decisão é que os árbitros ingleses entrariam na equação para a final. Qualquer outro cenário os exclui automaticamente do jogo mais importante do mundo.
O caso não é inédito. Em 2022, no Catar, Taylor foi considerado um dos melhores árbitros do torneio e chegou perto de receber a final, mas ficou de fora quando a Argentina avançou para enfrentar a França. A mesma lógica geopolítica que o barrou há quatro anos se repete agora, com Oliver na mesma situação.
Como a FIFA define quem apita cada jogo
A designação dos árbitros em cada partida de Copa do Mundo é feita pela FIFA jogo a jogo, com desempenho como critério principal. Mas fatores geopolíticos também pesam. Assim como árbitros não podem apitar jogos de suas próprias seleções, também são afastados de partidas envolvendo países com os quais seu governo mantém disputas ativas. A lógica se estende ao chamado "caminho competitivo": árbitros ingleses e noruegueses, por exemplo, também estão fora da consideração para a partida entre Suíça e Argentina nas quartas, já que os vencedores desses dois duelos se enfrentarão na semifinal. A regra busca eliminar qualquer percepção de conflito de interesse - mesmo que indireta.
Algo semelhante ocorre no futebol de clubes. Na Premier League, Oliver não pode apitar Newcastle United ou Sunderland por ser natural do Nordeste da Inglaterra. A lógica é a mesma: neutralidade percebida, e não apenas real. A decisão final sobre as designações cabe a Pierluigi Collina, ex-árbitro italiano e atual chefe de arbitragem da FIFA.
Um debate que vai além do regulamento
Oliver nasceu depois da Guerra das Malvinas. Taylor tinha três anos quando o conflito terminou. A questão que paira sobre o torneio é se faz sentido que árbitros sejam penalizados profissionalmente por um conflito ao qual não têm qualquer ligação direta. Há quem argumente, com razão, que árbitros de elite são treinados para ignorar contextos externos e enxergar apenas o jogo. O argentino Facundo Tello, por exemplo, é considerado por muitos analistas como um dos melhores árbitros em atividade - e a lógica simétrica impede que ele apite jogos da Inglaterra pelo mesmo motivo.
A FIFA, por ora, mantém sua postura conservadora. O objetivo declarado é proteger a integridade da competição e evitar que qualquer resultado seja contestado com base em suspeitas de parcialidade. Seja qual for a avaliação sobre a política, o fato concreto é este: Michael Oliver fará história nesta quinta-feira em Los Angeles, mas o caminho até a final de julho passa por variáveis que estão muito além do seu desempenho em campo.